Proteção contra tensão reversa e sobretensão (3.3 V a 12 V)
Este tutorial descreve como projetar um estágio de proteção para um power rail/barramento DC na faixa de 3.3 V a 12 V, para reduzir o risco de dano quando:
- a alimentação é conectada com polaridade invertida;
- o usuário aplica uma tensão maior do que a permitida no barramento (ex.: injetar 12 V em um rail de 3.3 V);
- existe risco de injeção de tensão por outro caminho (ex.: cabo externo, periféricos, pinos de expansão, ESD, etc.).
A ideia geral é separar o problema em 2 funções:
- 1) bloquear corrente no sentido errado (reverse polarity / backfeed)
- 2) limitar/desconectar em caso de sobretensão (OVP)
A solução “certa” depende do que você quer proteger:
- Barramento como entrada de energia (um conector recebe alimentação externa)
- Barramento como distribuição interna (gerado na placa e exposto ao usuário)
Em projetos educacionais (onde o usuário pode errar), normalmente vale a pena usar uma proteção mais robusta, mesmo que custe mais.
0) Premissas deste projeto
- Os rails (3.3 V, 5 V, 12 V) são somente saída.
- Cada rail deve suportar até 1 A.
Consequência importante:
- A proteção deve impedir que o usuário alimente o rail por fora (backfeed). Ou seja, além de proteger contra polaridade reversa/sobretensão, o estágio deve ter bloqueio de corrente reversa (de
VOUTparaVIN).
1) Cenários de falha típicos
1.1) Polaridade reversa
Exemplos:
- fonte DC com conector 2 vias invertido;
- jacaré/banana invertidos;
- cabo de alimentação montado errado.
Efeito:
- sem proteção, componentes podem conduzir pela junção PN e queimar rapidamente.
1.2) Sobretensão (o caso “12 V no rail de 3.3 V”)
Exemplos:
- o usuário conecta o rail errado no conector (mistura 3.3 V/5 V/12 V);
- um módulo externo injeta 12 V por engano em um pino que deveria ser 3.3 V.
Efeito:
- 3.3 V é excedido rapidamente, e geralmente o dano ocorre em:
- MCU/SoC (pinos e VDD)
- sensores
- LDOs/bucks (se estiverem “no caminho reverso”)
1.3) Backfeed (injeção por carga)
Mesmo se você protege o “input principal”, ainda pode existir injeção por:
- sinais de IO com diodos internos (clamp ESD nos pinos do MCU)
- periféricos conectados
- outra fonte conectada em paralelo
Para esse caso, quase sempre você precisa de isolamento por caminho de alimentação (série com MOSFET/eFuse) e de regras de interface (resistores, proteção de IO, etc.).
2) Requisitos práticos (o que definir antes)
Defina, para cada rail que será exposto ao usuário (3.3 V, 5 V, 12 V):
- Vnom: tensão nominal (3.3/5/12)
- Imax: corrente máxima esperada
- Vrev: quanto tempo/nível você quer sobreviver com polaridade invertida (idealmente indefinido)
- Vov_trip: tensão em que deve desligar (ex.: 3.6–4.0 V para rail 3.3 V)
- Energia de surtos/ESD: se o conector for “externo”, você precisa de TVS
Também defina se o rail pode ser entrada OU saída (bidirecional). Em rails “educacionais”, muitas vezes o rail é exposto como saída, mas o usuário pode tentar usar como entrada.
- Se você quer impedir que o rail seja alimentado por fora, você precisa bloquear backfeed.
Nesta placa, como os rails são somente saída, o bloqueio de backfeed não é opcional.
3) Topologia A (simples, barata): fusível + MOSFET de polaridade + TVS
Esta topologia é boa para:
- polaridade reversa;
- surtos/ESD;
- curto na saída (dependendo do fusível);
Mas não é a melhor para “12 V aplicado em rail 3.3 V”, porque o TVS pode ter que absorver muita energia e o fusível pode demorar a atuar.
3.1) Bloco do circuito
VIN ---- F1 ---- Q1 (MOSFET ideal diode) ---- VOUT ---- COUT ---- carga
|
+---- DTVS para GND (opcional, recomendado em conector)
- F1: polyfuse (PTC) ou fusível normal.
- Q1: MOSFET canal P no high-side (ou N com controlador ideal diode). Configurado para atuar como “diodo ideal” (baixa queda) e bloquear reverso.
- DTVS: TVS para proteger contra ESD e transientes rápidos (não para “segurar 12 V indefinidamente”).
Notas de dimensionamento (para até 1 A):
- Para não perder muita tensão, você quer Rds(on) baixo. Exemplo de ordem de grandeza:
- alvo
Rds(on) <= 50 mΩ(em condições realistas deVGS) - queda a 1 A:
V = I*R = 1A*0.05Ω = 50 mV - dissipação a 1 A:
P = I²*R = 1²*0.05 = 50 mW
- alvo
- Se usar PTC como F1, escolha um modelo com:
Iholdmaior que sua corrente nominal contínua (ex.: 1 A)Itripcoerente com sua fonte/corrente de curto- atenção: PTC pode demorar para atuar e deixa a placa aquecida durante falha.
3.2) Como o MOSFET bloqueia reverso (visão rápida)
- Com polaridade correta, você puxa o gate do MOSFET de forma que
VGSfique negativo e o MOSFET conduza. - Com polaridade invertida, o diodo de corpo fica reversamente polarizado e o MOSFET desliga, bloqueando corrente.
3.3) Limitações desta topologia
- Sobretensão contínua (ex.: 12 V em rail 3.3 V) só é “resolvida” se:
- o TVS entrar em avalanche e o fusível abrir/limitar rápido o suficiente;
- e a energia térmica for aceitável.
Em um produto educacional, isso pode funcionar como “último recurso”, mas não é uma proteção elegante.
4) Topologia B (recomendada): eFuse/hot-swap com reverse + OVP cutoff
Para evitar dano quando o usuário aplica a tensão errada, o ideal é desconectar o rail automaticamente quando VOUT ou VIN passar do limite.
A forma mais prática e robusta é usar um eFuse / load switch com proteção.
4.1) Bloco do circuito
VIN ---- (TVS) ---- eFuse/LoadSwitch (reverse + OVP + ILIM) ---- VOUT ---- carga
Esse CI geralmente fornece:
- Reverse input protection (bloqueia polaridade invertida)
- Reverse current blocking (impede backfeed do VOUT para VIN)
- Overvoltage protection (OVP): desliga acima de um threshold
- Current limit / short protection: limita corrente em falha
- Thermal shutdown
4.2) Como aplicar na faixa 3.3 V a 12 V
Em um sistema com múltiplos rails expostos (3.3/5/12), a prática recomendada é:
- Ter um eFuse por rail exposto, com limiar de OVP adequado:
- rail 3.3 V: trip ~3.6–4.0 V
- rail 5 V: trip ~5.6–6.5 V
- rail 12 V: trip ~13.0–15 V (dependendo do que seus componentes suportam)
Assim, se o usuário aplicar 12 V no rail 3.3 V, o eFuse do rail 3.3 V abre e isola o barramento rapidamente.
Para o requisito de 1 A:
- Selecione eFuse/load switch com
ILIMprogramável ou fixo que suporte:- corrente contínua >= 1 A
- eventos de curto (foldback/limite/thermal)
- Verifique a queda de tensão no caminho:
Vdrop ≈ I * Ron(para load switches com resistência de condução)- quanto menor
Ron, melhor para manter 3.3 V dentro da tolerância com 1 A.
4.3) Componentes típicos ao redor do eFuse
- Capacitores de entrada/saída (para estabilidade e resposta a transientes)
- Resistor/programação de limite de corrente (se aplicável)
- Pino
ENe/ouFAULTpara o MCU sinalizar e registrar falhas
4.4) Vantagens
- Atua rápido e de forma repetível.
- Dissipa menos que uma proteção “crowbar+fusível” em erros comuns.
- Ajuda muito no caso de injeção e backfeed.
4.5) Observações importantes
- Verifique a faixa de operação do CI (tensão máxima absoluta e tensão operacional).
- Confirme se ele bloqueia reverse current (muitos load switches simples não bloqueiam).
5) Alternativa clássica para OVP: “crowbar” + fusível (quando faz sentido)
Outra técnica é forçar um curto controlado quando VOUT excede o limite, fazendo o fusível atuar:
- Comparador/referência detecta sobretensão.
- Um SCR/triac/MOSFET é acionado, “derrubando” o rail.
Essa abordagem pode ser útil quando:
- você quer uma proteção de sobretensão muito “agressiva”;
- a fonte que alimenta o rail é limitada;
- você aceita trocar fusível (ou deixar o PTC aquecer e limitar).
Mas em rails educacionais (onde o usuário pode errar várias vezes), eFuse costuma ser melhor UX.
6) Checklist de implementação (o que não esquecer)
- Proteção precisa estar o mais perto possível do conector onde o erro pode acontecer.
- Use TVS em entradas expostas para ESD/transientes.
- Garanta bloqueio de corrente reversa (backfeed) quando o rail pode ser alimentado externamente.
- Considere também a proteção dos sinais (IO): se o usuário injeta tensão por um pino de sinal, o rail pode subir via diodos internos.
- Se houver conversores DC-DC/LDO, verifique se precisam de:
- diodo de bypass (proteção contra corrente reversa)
- ou se o próprio eFuse resolve o backfeed
7) Recomendação direta para este caso (rails somente saída, até 1 A)
- Use um estágio com bloqueio de corrente reversa + OVP por rail exposto.
- Para o rail 3.3 V, priorize uma solução que realmente desconecte em sobretensão (Topologia B), porque:
- “12 V no 3.3 V” não é transiente rápido, é erro de conexão;
- depender só de TVS/Zener vira dissipação e pode falhar.
- Para os rails 5 V e 12 V, a mesma lógica se aplica: OVP + reverse-current blocking melhora muito a sobrevivência do kit.
8) Recomendações práticas (para um kit educacional)
- Se o rail 3.3 V for exposto ao usuário: use eFuse com OVP ajustada (Topologia B).
- Se o rail 12 V for exposto ao usuário: use eFuse com limite de corrente e TVS.
- Evite depender apenas de Zener/TVS para “aguentar 12 V no 3.3 V”: isso vira dissipação térmica e pode falhar.
Observação sobre TVS:
- TVS é excelente para ESD/transientes curtos.
- Para erro contínuo de ligação (ex.: conectar 12 V fixo no conector do rail 3.3 V), o elemento que “resolve” deve ser a desconexão (eFuse/load switch) e não o TVS.